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Livros e filmes para reflectir sobre a “pandemia”.

 

A literatura e o cinema já se debruçaram bastante sobre epidemias (reais ou imaginárias). O que essas obras nos revelam em tempos de coronavírus

Sete s√©culos depois, a¬†peste negra¬†continua sendo uma das epidemias mais letais da hist√≥ria. De 1333 a 1351, 50 milh√Ķes de pessoas morreram da doen√ßa ‚ÄĒ causada pela bact√©ria¬†Yersinia pestis¬†e transmitida pela pulga de roedores ‚ÄĒ em pa√≠ses da Europa e da √Āsia. Em seu auge, relatam historiadores, n√£o havia sobreviventes em n√ļmero suficiente para sepultar os mortos.

O que fizeram? Passaram a cremar seus corpos. Já naquela época, as autoridades recomendaram a quarentena como antídoto à disseminação da doença. Por quarenta dias, os infectados deveriam permanecer isolados dos demais para evitar o contágio.

Depois da peste negra, ainda enfrentamos a¬†gripe espanhola¬†(1918), com uma estimativa de mortos compar√°vel √† da cat√°strofe medieval. E, agora, ainda que os n√ļmeros nem se comparem ‚ÄĒ e, se tudo der certo, ser√£o bem mais baixos mesmo ‚ÄĒ encaramos a pandemia do¬†coronav√≠rus, causador da Covid-19. N√£o √© √† toa que ataques de doen√ßas infecciosas tenham marcado, h√° s√©culos, nosso imagin√°rio.

Escritores dos mais diferentes gêneros e estilos, como a inglesa Mary Shelley, de O Último Homem (clique no link para saber mais e comprar), de 1826; o americano Edgar Allan Poe, de A Máscara da Morte Rubra (1842), e o colombiano Gabriel García Márquez, de O Amor nos Tempos do Cólera (1985), descreveram os horrores de uma epidemia.

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Um dos pioneiros foi Daniel Defoe (1660-1731). Em¬†Um Di√°rio do Ano da Peste¬†(1722), o ingl√™s relata o epis√≥dio que devastou Londres em 1665 e dizimou 100 mil pessoas. O desespero era tanto que, na falta de um tratamento eficaz, as pessoas recorriam √†s mais estapaf√ļrdias profilaxias, como mastigar tabaco ou amarrar noz-moscada ao pesco√ßo. Com medo da contamina√ß√£o, muitas fam√≠lias se trancaram em casa. Outras tantas fugiram √†s pressas.

A fam√≠lia do comerciante James Foe, o pai de Daniel, √© uma das que debandaram da capital brit√Ęnica. Caso contr√°rio, √© prov√°vel que o garoto, ent√£o com 5 anos, n√£o tivesse sobrevivido para escrever, aos 59, um dos cl√°ssicos da literatura universal,¬†Robinson Cruso√©¬†(1719).

Da Inglaterra do século 17 para a Argélia do século 20. Foi lá, na cidade de Orã, que o Albert Camus, prêmio Nobel de Literatura de 1957, ambientou o romance A Peste (1947). O flagelo teve início quando, sem motivo aparente, milhares de ratazanas começam a fugir dos esgotos e a invadir as ruas. Logo, seus habitantes começam a cair doentes e, dali a poucos dias, a definhar até a morte.

Para evitar a dissemina√ß√£o da peste, as fronteiras foram fechadas. Quem estava fora n√£o podia entrar e quem estava dentro era proibido de sair. Em carta enviada ao fil√≥sofo franc√™s Roland Barthes (1915-1980), em 11 de janeiro de 1955, Camus admitiu que¬†A Peste tinha forte conota√ß√£o pol√≠tica. Publicado logo depois do fim da Segunda Guerra Mundial, era uma alegoria da ocupa√ß√£o alem√£ em Paris, onde o autor vivia na √©poca, e representava, em suas palavras, ‚Äúa luta da resist√™ncia europeia contra o nazismo‚ÄĚ

Premonição ou coincidência?

Na era do Covid-19, a obra-prima de Camus voltou a ser procurada em sebos e livrarias do mundo inteiro e j√° est√° entre os cinco mais vendidos da Amazon no g√™nero ‚Äúfic√ß√£o liter√°ria‚ÄĚ. Fen√īmeno semelhante ocorreu com¬†The Eyes of Darkness¬†(1981). J√° houve quem afirmasse que o autor da obra, o americano Dean Koontz, teria ‚Äúprevisto‚ÄĚ a pandemia de coronav√≠rus.

No livro, in√©dito no Brasil, Koontz batizou um v√≠rus letal e altamente transmiss√≠vel de Wuhan-400. Isso mesmo, o nome da capital da prov√≠ncia de Hubei que, entre o fim de 2019 e o in√≠cio de 2020, se tornou o epicentro da transmiss√£o mundial do coronav√≠rus. Na vers√£o original da obra, o nome da ‚Äúarma biol√≥gica‚ÄĚ era Gorki-400 e tinha sido desenvolvida em um laborat√≥rio ultrassecreto da antiga Uni√£o Sovi√©tica. Por raz√£o desconhecida, Koontz mudou o nome do v√≠rus, de Gorki-400 para Wuhan-400, em 1989.

E, por falar em coincid√™ncias, o que dizer do filme¬†Cont√°gio¬†(2011), dirigido por Steven Soderbergh? Na trama, roteirizada por Scott Z. Burns, uma executiva americana, interpretada por Gwyneth Paltrow, viaja para a inaugura√ß√£o de uma f√°brica na China. L√°, √© infectada por um v√≠rus misterioso depois de cumprimentar um chef de cozinha, o ‚Äúpaciente zero‚ÄĚ, que n√£o higienizou as m√£os depois de preparar um leit√£o contaminado.

Dali por diante, a mulher passa¬†a transmitir a doen√ßa para outras pessoas: um gar√ßom de Hong Kong, uma modelo da Inglaterra, um empres√°rio do Jap√£o‚Ķ Em poucos dias, o que parecia ser um surto se transforma em epidemia e, em poucos dias, ganha propor√ß√Ķes mundiais.

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Para criar o fictício MEV-1, o roteirista Scott Z. Burns se baseou em três vírus reais: o Nipah, a Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars, na sigla em inglês) e a gripe espanhola. Não bastasse, ainda dissecou o livro A Próxima Peste (1995), da escritora Laurie Garrett, conversou com epidemiologistas e visitou a sede do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, em inglês), que fica em Atlanta (EUA).

A certa altura do filme, a m√©dica Erin Mears, vivida por Kate Winslet, recomenda a pr√°tica de lavar as m√£os com √°gua e sab√£o como medida de preven√ß√£o. ‚ÄúUma pessoa toca o rosto, em m√©dia, de 2 a 3 mil vezes ao dia‚ÄĚ, explica a infectologista. ‚ÄúQuando est√£o acordadas, de tr√™s a cinco vezes por minuto‚ÄĚ. Conselho que pode ser importado da fic√ß√£o para os dias atuais.

‚ÄúMantenham-se calmos!‚ÄĚ

Outro livro sobre surtos e epidemias que ganhou as telas do cinema foi¬†Ensaio Sobre a Cegueira (2008), adaptado por Fernando Meirelles a partir do romance hom√≥nimo de Jos√© Saramago. Diferentemente de Cont√°gio, a infec√ß√£o misteriosa descrita em¬†Ensaio sobre a Cegueira¬†(1995) n√£o causa febre, tosse ou convuls√£o. Mas, sim, uma ‚Äútreva branca‚ÄĚ.

Aos poucos, os habitantes de uma cidade, um por um, v√£o perdendo a vis√£o. Por medida de precau√ß√£o, o governo decide confinar os infectados em um manic√≥mio abandonado, onde s√£o obrigados a reaprender a viver em sociedade. Nessa hora, o Nobel de Literatura de 1998 mostra do que as v√≠timas da ‚Äúcegueira branca‚ÄĚ s√£o capazes para sobreviver em um territ√≥rio in√≥spito. ‚ÄúSe n√£o formos capazes de viver inteiramente como pessoas, fa√ßamos tudo, ao menos, para n√£o viver inteiramente como animais‚ÄĚ, escreve o autor portugu√™s.

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No come√ßo de Mar√ßo, o escritor Stephen King postou uma mensagem no Twitter: ‚ÄúN√£o, o coronav√≠rus N√ÉO √Č como ‚ÄėA Dan√ßa da Morte‚Äô. Nem de longe‚ÄĚ. O escritor se referia a um de seus livros mais famosos, o apocal√≠ptico A Dan√ßa da Morte (1978), que conta a hist√≥ria de um grupo de pessoas que, depois que uma super-gripe fabricada em laborat√≥rio se alastra pelo planeta e dizima 99% da popula√ß√£o, precisa unir for√ßas para recome√ßar do zero.

A inspira√ß√£o para escrever sua vers√£o para o fim do mundo veio em 1974, quando assistiu a uma edi√ß√£o do programa¬†60 Minutes, da rede CBS, sobre armas qu√≠micas e biol√≥gicas. No twite postado no √ļltimo dia 9 de mar√ßo, o homem que ganha a vida espalhando o medo procurou tranquilizar seus leitores: ‚Äú√Č poss√≠vel sobreviver (ao coronav√≠rus). Mantenham-se calmos e tomem as precau√ß√Ķes necess√°rias‚ÄĚ.

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